Crítica: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão

Nota:

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, novo projeto de Karim Aïnouz, é muito mais do que um filme cuja narrativa segue a vida de duas irmãs: é, além disso, o retrato de uma época – os anos 1950 -, de seu machismo e de uma sociedade que talvez não tenha evoluído tanto quanto desejávamos.

Melancólico, o longa nos leva à uma viagem por mais de uma década – com uma belíssima passagem de tempo em seu terceiro ato – nas vidas de Eurídice (vivida em sua juventude por Carol Duarte e em sua velhice por Fernanda Montenegro) e Guida (Julia Stockler).

Confidentes e amigas, as irmãs vivem a doçura do fim de suas adolescências, mesmo tendo pais extremamente conservadores. Sempre cúmplices uma da outra, ambas se apoiam mutuamente, ao ponto de Eurídice ajudar Guida em suas “escapadas” para sair com o namorado estrangeiro e de esta ser um dos maiores pilares para que Eurídice siga adiante com seu sonho de ser uma grande pianista e estudar no exterior. Assim, é belíssimo o orgulho que Guida sente da irmã, algo que faz questão de expressar em diversos momentos, especialmente nas cartas que, por anos, tenta enviá-la.

Mas, indiscutivelmente, a temática principal da obra é o machismo do Rio de Janeiro de 1950, algo evidenciado por toda a projeção em momentos como aqueles em que, prestes a ter sua primeira relação sexual com o marido Antenor (Gregório Duvivier), Eurídice recebe o conselho de que deve “fechar os olhos e pensar em outra coisa, porque passa logo”, algo procedido por uma cena em que, mesmo passando mal, ela é coagida por ele ao ato sexual para que, logo em seguida, o mesmo exiba as alianças de ambos em frente ao espelho do banheiro, num gesto onde, nas entrelinhas, praticamente dissesse a ela que agora a possui e que está em seu direito de marido ao usar seu corpo.

Como se não fosse o bastante, ainda testemunhamos Antenor interrompê-la ao piano para se satisfazer sexualmente, ao passo que a protagonista apenas consegue fazê-lo desistir de realizar o ato sobre o instrumento, em uma cena emblemática que denota o desprezo que o homem sente pelo seu maior sonho, a música, e seu desejo de apenas utilizar seu corpo para que lhe satisfaça. Logo em seguida, a vemos inocentemente lavando a própria vagina numa tentativa desesperada de não engravidar, em uma época anterior à pílula anticoncepcional e na qual as mulheres não possuíam qualquer tipo de autonomia sobre seus corpos e a maternidade era, no final das contas, algo compulsório.

Mas não é apenas isso que faz com que a vida de Eurídice seja invisível: o machismo sistematizado de sua própria família – já que o patriarca desta preferiu colocar Guida na rua do que aceitar a filha como mãe solteira – foi o que separou as duas irmãs; separação esta que acaba por ser um dos maiores motivos de sofrimento delas. Mas, mais que isso, A Vida Invisível não se basta em retratar as grandes demonstrações do machismo, mas também aquelas pequenas, como um momento em que a família toda, em especial os homens e crianças, esperam que Eurídice sirva a todos antes dela própria comer durante uma ceia de Natal.

Isto, aliás, é algo que a mise en scène, juntamente com a fotografia de Hélène Louvart, destacam de maneira primorosa utilizando planos que, muitas vezes, cortam partes do rosto de Eurídice ou Guida, que posicionam as figuras masculinas a frente das femininas e que atingem seu ápice em uma cena específica na qual, após um surto de “psicose maníaco-depressiva”, vemos o médico informar a Antenor que Eurídice se encontra grávida e observamos apenas os dois homens em primeiro plano, com o rosto de Eurídice fora de quadro, numa nítida demonstração de que, ali, a mulher vale menos do que um objeto. Logo em seguida, inclusive, o médico informa que após uma internação, ela estaria “pronta para ser mãe novamente”, em tom de quem pouco se importa com sua própria felicidade ou até mesmo sanidade, servindo apenas aos propósitos de mãe e esposa.

Curiosamente, é quando resolve fazer uma prova para o conservatório de música que Eurídice é defendida pela própria filha quando Antenor diz que a esposa “o enganou para fazer uma prova” e a pequena pergunta, com toda sua inocência de criança: “mas não era o sonho dela?”.

No final das contas, novamente, é uma mulher – mesmo que um pequeno exemplar – a lutar por outra e tentar tornar sua vida um pouquinho menos invisível.

Título original: A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
Ano:2019
Duração:139min
País de origem:Brasil, Alemanha
Direção:Karim Aïnouz
Roteiro:Murilo Hauser, Inés Bortagaray, Karim Aïnouz (baseado na obra de Martha Batalha)
Elenco:Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão, António Fonseca, Nikolas Antunes, Maria Manoella, Gregório Duvivier, Flavio Bauraqui, Gillray Coutinho, Fernanda Montenegro
Design de produção:Rodrigo Martirena
Fotografia:Hélène Louvart
Montagem:Heike Parplies
Trilha sonora:Benedikt Schiefer
Distribuição:
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