Crítica: Bacurau

Nota:

Bacurau, provavelmente o filme mais ousado da carreira de Kléber Mendonça Filho – que aqui divide o roteiro e a direção com Juliano Dornelles – é uma daquelas obras que, em sua profundidade, revela muito mais do que se pode ver na superfície, servindo, basicamente, como uma metáfora incrivelmente bem construída do Brasil de 2019 e do bolsonarismo.

Ambientado na fictícia cidade de Bacurau, no oeste de Pernambuco, enxergamos um futuro no qual o país foi dividido em dois – e embora não saibamos exatamente quais estados pertencem a qual metade, o Nordeste obviamente não se encontra no “Brasil do sul” – e que chegou ao ponto de que execuções públicas acontecem no centro de São Paulo, num claro alerta ao nível de barbárie para a qual estamos caminhando.

E sobre a pequena Bacurau, aos poucos, nos damos conta do quão precária é a pequena cidade isolada – provavelmente junto com boa parte do Nordeste – já que até mesmo a água potável parece ter se tornado artigo de luxo e chega à cidade via caminhão-pipa ou que caixões passaram a ser artigo de necessidade básica. As notícias são passadas de morador a morador através de um grupo num aplicativo de mensagens ou de um DJ que, usando apenas um microfone e uma caixa de som, consegue informar os habitantes da cidade toda.

Com a proximidade das eleições, o odiado prefeito Tony Junior (Lima) tenta comprar os votos da população com mantimentos vencidos, livros despejados sem qualquer tipo de delicadeza por uma caçamba, caixões e um curioso medicamento que, segundo Domingas, brilhantemente vivida por Sonia Braga, “deixa a pessoa lesa e é usado como supositório” e que, ao ser oferecido por um político, serve como metáfora perfeita para a dormência social do brasileiro e as consequências desta.

E, assim, é logo após a morte de Dona Carmelita (Itamaracá), uma das mais antigas e importantes habitantes da cidade, que Bacurau passa a ser alvo de um grupo de norte-americanos dispostos a atacá-la de todas as maneiras possíveis, aparentemente apenas por pura diversão – e é emblemático que a senhora em questão seja justamente uma mulher negra, o que acaba por refletir significantemente a mensagem principal do longa.

O caminhão-pipa que levaria água ao povoado é atacado por balas, pessoas são mortas à queima-roupa e, de alguma maneira, a cidadezinha chega a sumir completamente do mapa e todos os celulares passam a ficar sem sinal numa emboscada planejada pelo grupo de estadunidenses, contando com a ajuda de um casal de brasileiros (vivido por Karine Teles e Antonio Saboia) que acredita total e plenamente ser melhor do que os nordestinos por, em suas palavras, “ter vindo de uma parte mais rica do Brasil, onde existem colônias europeias”, ao passo que são retrucados imediatamente pelos gringos, que afirmam categoricamente que os dois “parecem brancos, mas estão mais para mexicanos”.

E, aqui, é impossível continuar qualquer discussão acerca da obra sem antes fazer uma imersão na bela analogia criada por Mendonça Filho e Dornelles acerca do Brasil atual e sua caminhada em direção a um abismo de trevas cada vez maior, onde a pequena e fictícia Bacurau serve para mostrar o Brasil como um todo e onde, no terceiro ato, somos levados a crer que o político odiado (porém eleito) é responsável por, de alguma maneira, entregar a cidade nas mãos dos estrangeiros assassinos que se veem como superiores – já que chegam a chamar os habitantes de Bacurau de “selvagens de merda” – e onde, em dado momento, o próprio casal de brasileiros que se acha melhor que os nordestinos por serem da porção mais ao sul do Brasil ajuda os forasteiros na missão de destruir Bacurau e seu povo – e se isso não é a analogia perfeita para a eleição de Bolsonaro, seu entreguismo aos Estados Unidos e uma boa parte da população que se acha cultural e socialmente superior por ter nascido no sul ou sudeste (ao ponto de chamar uma capital do sul de “República”), eu não sei o que seria. E, dito isso, não é surpreendente que o tal casal acabe sendo violentamente morto pelos estrangeiros que em nenhum momento os enxergaram como mais do que massa de manobra barata.

Mas é no terceiro ato que Bacurau termina de nos encantar, quando a população da cidade-título resolve contra-atacar não apenas os estadunidenses, mas também resolva dar uma lição em Bolson…, digo, Tony Junior e expulsá-lo praticamente a pontapés de Bacurau. Além disso, a leitura dos nomes daqueles perdidos no conflito são lidos em voz alta e, nesta lista, poética e emblematicamente, estão os nomes de uma Marisa Letícia e uma Marielle.

Com uma trilha sonora que consegue mesclar de forma genial músicas instrumentais que lembram muito a trilha composta por Vangelis para o clássico Blade Runner e a bela voz de Geraldo Vandré, famoso como um dos maiores ícones de resistência artística aos anos de ferro da ditadura militar brasileira – algo que faz total sentido se considerarmos o contraste entre a pequena e precária Bacurau e a tecnologia de ponta portada pelos estrangeiros – Bacurau nos leva a conhecer um pouco mais daquele povo que, mesmo em sua pequena quantidade, representa tão bem a diversidade populacional brasileira, tendo negros, brancos, jovens e velhos e inclusive uma mulher trans.

Povo este que se levanta contra os abusos, a violência, a censura e o domínio de uma maneira que espero ver também o povo brasileiro se levantar.

Título original:Bacurau
Ano:2019
Duração:131min
País de origem:Brasil, França
Direção:Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Roteiro:Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Elenco:Barbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Rubens Santos, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Antonio Saboia, Karine Teles, Sonia Braga, Udo Kier,
Design de produção:Thales Junqueira
Fotografia:Pedro Sotero
Montagem:Eduardo Serrano
Trilha sonora:Mateus Alves, Tomaz Alves Souza
Distribuição:Vitrine Filmes
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