Sem expectativas

Quando Homem-Aranha no Aranhaverso saiu nos cinemas eu não esperava muita coisa, claro sabia que seria um ótimo filme, mas não pensei que me tocaria de tantos jeitos. De certa forma, o processo de analise em mim foi demorado, eu não conseguia definir como e o porquê foi tão difícil entender a obra, a aventura de Miles Morales me atingiu bruscamente.

Na primeira vez que assisti, eu voltei para os meus sete anos, fui inundado pela minha infância, ri com as piadas, vibrei com as lutas e fiquei sem fôlego na cena final, o filme terminou e estava cantarolando a trilha sonora incessantemente, eu definitivamente não sabia do que tinha gostado mais, estava decidido a ver mais vezes, precisava disso.

Na segunda vez, estava em casa e assisti com mais calma, tentei focar na trama principal e lembrar nitidamente de cada parte da história, não consegui exatamente, mas fui passando a admirar os estilos de animação diferente de cada personagem de dimensões alternativas, a forma como os diretores conseguiram nos fazer gostar de cada um organicamente e adicionar profundidade até no Porco-Aranha e suas armas espalhafatosas. O público todo já sabia a história clássica e o peso dela para um personagem tão humano quanto nosso amigo teioso.

Miles Morales demonstra nosso deslumbramento, é uma versão atualizada e divertida do garoto que demora em se enturmar em um ambiente diferente e em como ele se negava a aceitar seu potencial, um adolescente em dúvida do seu futuro e que ainda não entende a implicância de seu pai com suas escolhas. O peso da morte do Peter Parker original foi devidamente sentido, o ar a nossa volta fica denso, ficamos desesperados junto com Miles. O filme flerta com nossos sentimentos e o ritmo frenético nos faz ter que absorver tudo ali muito rápido.

Na terceira vez, eu chorei.  

O começo da história de Miles passa pelo tema das expectativas criadas por tudo que seus pais esperavam dele, uma eterna procura por aceitação em um lugar que oprime suas vontades individuais artísticas. A fuga do personagem para conversar com seu tio Aaron, demonstra a procura de aceitação, em um mundo tão caótico, ter alguém para conversar é muito bom. A conversa culmina na cena do grafite “No Expectations” , que diz muito sobre o momento e como expectativas pressionam um jovem.

Depois que somos introduzidos na maluquice de mundos e personagens, fica mais difícil analisar por o ângulo que descrevo, mas pequenos detalhes demonstram os poderes de Miles aflorando e como sua insegurança afeta seu desempenho, uma procura constante pela aprovação dos outros Aranhas causa nele uma frustração que o prejudica para entender seu crescimento.

Durante todas as histórias clássicas, a morte do Tio Ben foi o estalo de toda a trajetória do herói criado por Stan Lee, dessa forma, o enredo do filme também coloca densidade nesse momento, agora com Tio Aaron, e o ótimo diálogo após a triste situação colocam o espectador em perspectiva, todos os Homens-Aranha passaram por isso e somente eles podem entender a dor de Miles. E a grande mudança que fez o protagonista acordar foi na verdade o monólogo do pai dele através da porta.

Ele estava determinado e sabia o que tinha que fazer, a cena final, além de um show de cores e ação desenfreada, introduz o verdadeiro Miles, leve, sem pressão e confiante, sabendo seu potencial. O desfecho só nos mostra o que estava em camadas.

O agora novo Homem-Aranha se vê sozinho novamente, lutando contra o vilão, estava cansado e fraco. A magnífica cena com seu pai torcendo por ele, dá um novo fôlego que revela tudo que Miles queria, alguém finalmente reconhecendo quem ele era, sem julgamentos, sem expectativa.

Foi nessa parte que chorei.

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