Dear White People e a complexidade do processo de cura

A terceira temporada de Dear White People na Netflix estreou e passou até despercebida dentro desse turbilhão de séries novas que são disponibilizadas na locadora vermelha, assim, muita gente perdeu uma das melhores temporadas de uma série tão complexa e rica.

Para quem assiste o seriado, somos confrontados com um exercício constante de reflexão sobre o funcionamento de uma sociedade racista como a dos Estados Unidos, mas desde a segunda temporada, a série decidiu guinar seus personagens para uma jornada de autoconhecimento tão interessante que o estilo de narrativa se confunde e se organiza de diferentes maneiras dependendo de cada temporada.

Falando em roteiro, a estrutura inicial da primeira temporada era sobre cada episódio focar em cada personagem principal e a história passar por cada um demonstrando seu ponto de vista sobre uma cena com diferentes ângulos, dessa forma, vamos criando empatia e entendendo cada um dentro da Universidade. A grande mudança nessa nova temporada, é um roteiro que obviamente foca nos principais, mas de uma forma muito mais orgânica, sem medo em incluir novos núcleos de personagens de uma gama já gigantesca. 

Dessa forma, a série sempre teve um ritmo quase frenético, falava sobre política e militância, sexualidade e tinha um humor ácido inconfundível, nessa nova fase, o diretor Justin Simien decidiu desacelerar, quase como uma autocrítica, os personagens parecem cansados de suas trajetórias pessoais, todos estão tentando achar um novo foco, uma nova identidade, uns lidam com o luto, outros parecem que idealizam algo que já passou, alguns vão mais ao fundo de sua sexualidade, tudo isso com seu tempo e uma coerência absurda.

Porém, um personagem me chamou mais atenção, Reggie Green (Marque Richardson) ganhou um destaque gigantesco na primeira temporada, inicialmente parecia que ele seria apenas o instrumento de um triângulo amoroso. Porém, a assombrosa cena da arma apontada pelo guarda universitário para Reggie (foto acima) ecoa por quase todos os capítulos das próximas discussões dentro do seriado.

Com a situação, os roteiristas decidiram sair do senso comum, depois de discuti-lo muito, e abordou com delicadeza assuntos como masculinidade e estresse pós-traumático, isto posto, focarei em ambos para mostrar o crescimento complexo desse protagonista.

Dentro da nossa sociedade, durante o crescimento, os homens são estruturados em certas caixas de comportamento altamente tóxicas e, mesmo que o caráter machista os coloque em uma posição privilegiada, certos padrões moldam todo um gênero: ser aquele que aguenta tudo, não chorar e não ter sua masculinidade questionada, tomar frente em tudo e o mais importante é que você não o direito de ser frágil. É claro que gradualmente esses temas são discutidos, porém, Dear White People escolhe a sutileza para colocar Reggie nessas discussões.

O personagem é atormentado com as lembranças do dia tão traumático quase todas as noites, tem pesadelos e gradativamente vai se distanciando de seus amigos, e até depois que ele resolve suas questões amorosas, o distanciamento continua e devagar vamos entendendo que isso é sobre a impotência e o medo refletidos no momento tão problemático, algo foi quebrado dentro dele, tudo que acreditava não servia para nada diante de uma arma de fogo, sua masculinidade foi confrontada tão internamente que ele nem sabia por onde começar.

O distanciamento vem dai, ele não sabia com quem conversar e sempre que tentava havia um sentimento de que o outro não sabia como o entender, o que era verdade em certo ponto. Aqui entramos na parte do estresse pós-traumático, durante os episódios vemos que Reggie tem lapsos com a cena e é a clara demonstração da dificuldade em superar o ocorrido, enquanto todos parecem seguir com suas vidas, ele parece que simplesmente não consegue e isso é muito frustrante, enquanto não resolve suas questões internas, a sua vida externa transparece ser somente uma distração.

Quando o personagem de Blair Underwood é apresentado, o carismático professor que posteriormente (alerta de spoiler) assedia uma aluna, no começo da trama, Reggie e ele criam uma conexão devido ao passado em comum devido aos abusos racistas dos guardas universitários também. Reggie encontra alguém com quem conversar e desabafar, isso é um curativo para o personagem. Então ficamos preocupados, ele estava conseguindo superar, será que o personagem iria conseguir aguentar outra decepção? E conseguiu, não de forma mágica, mas com um enfrentamento, ao questionar seu professor sobre o assédio, ele quebra esse ciclo do medo e da impotência que tanto o assombrou.

Claro, ele sofre, não acredita inicialmente, e eventualmente entende a gravidade da situação. No final das contas, ele não estava curado completamente, mas entendeu finalmente o processo de cura, sendo curto ou longo.

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