Crítica: Democracia em Vertigem

Nota:

Em um primeiro momento, pode-se dizer que Democracia em Vertigem, idealizado e dirigido por Petra Costa, trata-se de um documentário sobre a ascensão e queda dos governos do PT; mas, muito mais do que isso, o longa se estabelece como um ensaio sobre a máquina política brasileira desde a redemocratização da nação e quais são seus mecanismos e, principalmente, seu combustível.

Misturando a história da democracia brasileira com a sua, Petra entrelaça sua própria vida e a de seus familiares com as últimas décadas da política brasileira e, assim, não é à toa que a cineasta opte por utilizar gravações de família e que coloque sua própria mãe, presa na ditadura, como uma de suas personagens.

Melancólico, Democracia em Vertigem explora as engrenagens deste gigante maquinário utilizando-se de narrações em off contínuas e em primeira pessoa feitas pela própria diretora, causando ao espectador, assim, a sensação de estar compartilhando dos pensamentos e divagações desta, quase como quem penetra em sua mente ou folheia através das páginas de um diário.

Estabelecendo uma linha do tempo, o documentário mostra os horrores da ditadura, especialmente através de olhar de Dilma Rousseff, então militante, que, sobre as dores da tortura, lembra-se com sofrimento de como “enganava-se pensando que seria apenas mais um minuto, porque se pensasse que seriam cinco, não aguentaria” – o que gera um contraste doloroso quando vemos manifestantes contemporâneos pedindo por uma intervenção militar ou dizendo que “naquela época tudo era melhor”. 

Assim, seguimos ano após ano até a eleição de Lula. E se a obra poderia pecar virando um simples panfleto petista, o roteiro de Petra faz questão de lembrar, sobre os governos do Partido dos Trabalhadores, que “era triste ver um partido que elegemos na promessa de transformar o sistema se embrenhando numa estrutura promíscua de financiamento de campanha para tornar qualquer mudança impossível”, mas, em contrapartida, se lembra de que 20 milhões de pessoas haviam saído da pobreza, que o Brasil passava de 13ª para 7ª maior economia mundial e que Lula deixava o cargo com 87% de aprovação – uma das maiores registradas para qualquer presidente na história.

E aqui, invariavelmente, voltamos à máquina: sobre esta questão, Petra se relembra de uma situação em que, em certo evento, um grande empresário menciona como, em Brasília, mudam os políticos enquanto os empresários, os banqueiros, os latifundiários – que realmente detêm o poder – continuam, sempre, os mesmos, afinal, “somos uma democracia de famílias: umas controlam a mídia; outras, os bancos. Elas possuem a areia, o cimento, a pedra e o ferro e de vez em quando acontece delas se cansarem da democracia, do Estado de Direito”.

Quando Dilma é eleita, Petra relembra as comemorações, a alegria e, principalmente, o alívio daqueles menos favorecidos que tinham nela a esperança da continuação do governo Lula; ao mesmo tempo, víamos a direita – especialmente o PSDB de Aécio Neves – questionando o resultado das urnas e, nas palavras de Petra, “despertando as forças obscuras que fizeram rachar nossa democracia”.

Chegamos, então, ao processo de impeachment de Dilma, sobre o qual Petra relembra a atitude de Eduardo Cunha que, sem aceitar que a maior parte da bancada petista havia lhe negado apoio, resolve aceitar o pedido de Janaína Paschoal em represália – o mesmo Cunha que estava sendo acusado de desvio de dinheiro para bancos suíços. Adiante, vemos a condução coercitiva de Lula – que nunca se negou a prestar depoimento – e as ações de Sérgio Moro, que acaba por ter apoio de boa parte da mídia sem que haja qualquer tipo de questionamento por parte desta.

E é exatamente aqui que Petra Costa mostra sua enorme capacidade de construção semiótica quando, ao apresentar imagens de Jair Bolsonaro, ainda deputado, escolha especificamente por momentos nos quais o então parlamentar mostra uma de suas mais impactantes características fazendo gestos obscenos em plena Câmara dos Deputados, em uma atitude que esperaríamos de pré-adolescentes e não de um representante eleito pelo povo.

E, ainda sobre semiótica, é emblemático que Petra se utilize de imagens dos grandes salões do Palácio do Alvorada agora em meio à escuridão da noite ao mencionar que, depois da posse de Temer, estes se viam constantemente cheios de deputados das bancadas do Boi, da Bala e da Bíblia, a ala mais conservadora do plenário, mostrando o obscurantismo em que mergulhamos.

E, sobre este obscurantismo, o documentário nos deixa o questionamento:  “como lidar com a vertigem de ser lançado num futuro que parece ser tão sombrio quanto nosso passado mais obscuro? O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que revela é uma imagem mais assustadora de nós mesmos? De onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo?”.

Título original: Democracia em Vertigem
Ano:2019
Duração:121 min
País de origem:Brasil
Direção:Petra Costa
Roteiro:Petra Costa, Carol Pires, David Barker, Moara Passoni
Fotografia:João Atala, Ricardo Stuckert
Montagem:David Barker, Tina Baz, Jordana Berg, Joaquim Castro
Trilha sonora:Vitor Araújo, Rodrigo Leão, Gilberto Monte, Lucas Santtana
Distribuição:Netflix
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